Ontem foi ao ar o último capítulo da novela "Amor à Vida" na Rede Globo. Recheado de muito choro, vilões arrependidos (e mortos), crianças nascendo e casamentos aos montes, o autor Walcyr Carrasco, ainda assim, guardou o mais inusitado para o desfecho.Quem acompanhou os noticiários das últimas semanas, já sabia que havia uma grande possibilidade de acontecer o inédito "beijo gay" na emissora, feito inclusive já superado pela pioneira do Silvio Santos, o SBT, onde duas mulheres se beijaram na novela "Amor e Revolução". Apesar de não ter sido a primeira, a Rede Globo ainda era alvo de críticas por não permitir que tal fato acontecesse, segundo críticos, pelo medo da reação da emissora que detém os maiores pontos de audiência do país.
Pelo sim, pelo não, os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) vivenciaram um momento histórico na noite de ontem, o inusitado beijo aconteceu, sem muito alarde e nem exageros, parecia que o autor da novela apenas queria mostrar que tal comportamento existia, embora muitas pessoas não quisessem ver.
A reação foi instantânea, as redes sociais foram bombardeadas de elogios e críticas de todos os gêneros. Parecia até final de copa do mundo, tinha até gente gritando na rua.
Enquanto a cena acontecia, os atores Thiago Fragoso e Mateus Solano acompanhavam tudo em uma churrascaria no Rio (foto acima) com suas respectivas esposas, Mariana Vaz e Paula Braun (que interpretou a personagem Rebeca na trama).
AMOR À VIDA?
Até hoje não entendo o título dessa novela. Amor à vida tinha de tudo, menos amor. Um vasto caminho de traições, mentiras, prostituição e um monte de balelas que, todos nós sabemos, possuíam um único intuito: audiência e alguns milhões para a emissora em publicidade. Diante de tudo que a novela mostrou e que era noticiado durante esses meses, um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo seria fichinha, sempre pensei nisso.
Na verdade, muito se especulou sobra a reação social diante de um beijo gay no horário nobre. Fato é que ainda é muito cedo para falar sobre "reação" das pessoas de algo que acabou de acontecer, mesmo porque, se conhecemos bem a mídia nacional, isso aí no mínimo vai virar matéria do Fantástico e de outros programinhas da Rede Globo.
Ouviu-se inclusive em falar de boicote a novela por cristãos para frustrar a ideia do "beijo gay" na emissora, alegando que tal ato influenciaria de forma negativa a sociedade como um todo, destruindo a imagem da família brasileira.
O QUE MAIS ASSUSTA
Apesar da inutilidade das novelas, elas sempre se tornam um verdadeiro "termômetro" de como está o pensamento da sociedade, o que não foi diferente na trama do Walcyr Carrasco.
Alguns capítulos anteriores ao fatídico beijo, a personagem Aline, vivida pela atriz Vanessa Giácomo, esfaqueou o Ninho (Juliano Cazarré) em uma cena, no mínimo, perturbadora. Não sei se para mostrar mais realismo ou simplesmente por querer chocar, a cena mostrava a faca entrando na barriga do personagem com uma clareza assustadora (tudo envolto em truques de flmagens, claro).
Na mesma hora pensei: "nossa, que cena absurda! Espero que estejam criticando esse tipo de violência no horário nobre." Para a minha surpresa: nenhum comentário sério. Ao contrário, piadas eram feitas em todos os lugares, fotos com uma faca fincada em uma caixa de leite da marca Ninho faziam alusão à cena da novela.
Fiquei pensando se eu estava exagerando em relação a cena, que ainda assim, ao menos para mim, parecia muito forte para ser exibida naquele horário. Estávamos falando de uma tentativa de homicídio, facadas, sangue, por meio de uma cilada, impossibilitando a defesa da vítima, ou seja, um assassinato brutal e covarde, desses que vemos na TV aos montes nos noticiários. Mesmo assim, sem comentários na web.
Ontem a noite, quando voltava para casa, me deparei com uma chuva de comentários sobre o tal beijo gay. Pessoas se engalfinhando nas redes sociais, defendiam com unhas e dentes os direitos iguais, enquanto cristãos metralhavam a emissora pela má influência na família brasileira. Assunto mais comentado no twitter, facebook, instagram, enfim...o Brasil parou por causa do beijo.
Mas pera...se o Brasil parou por causa do beijo e não parou por causa de uma cena de assassinato brutal, tem alguma coisa errada...
Meus amigos, os valores estão destruídos. A satisfação do ego das pessoas ultrapassou todos os limites, a briga pelo que acreditam ser um avanço ou retrocesso fez com que a sociedade não enxergasse o que realmente acontece nas ruas. Engraçado que, quando falei sobre isso com algumas pessoas, elas afirmam: "por isso que nem assisto essas novelas...", mas o problema não estar em assistir ou não. De que adianta isso se você continua inerente a sua realidade?
Mas esse é o Brasil das novelas:
Em que torcemos pela mocinha, mas não ajudamos o vizinho.
Em que criticamos discutir a sexualidade, mas corremos para ver aquela atriz de biquíni.
Em que aplaudimos o beijo gay de atores consagrados e fofocamos sobre os trejeitos do colega de trabalho.
Em que criticamos a personagem interesseira da novela mas na vida real só queremos amizade com quem tem algo a nos oferecer.
Em que um assassinato merece elogios de atuação, mas o beijo gay irá destruir a nossa sociedade.
Falta muito para o Brasil se recuperar da sua consciência doente. Me espanto por que ainda perguntam qual o motivo de tanta violência e desigualdade no nosso país. Está claro não é? Quase ninguém se importa com a realidade.
O próprio autor Wlacyr Carrasco, não está nem aí para a repercussão do que escreve, quer dinheiro, quer ser consagrado e elogiado. Porque o verdadeiro Brasil está nas costas de quem luta para viver com dignidade e respeito. E nós, que poderíamos mudar o Brasil, ainda sequer entendemos as consequências de um beijo e de um homicídio...estamos bem... ¬¬





