terça-feira, 13 de janeiro de 2015

5 RAZÕES QUE ME FAZEM NÃO SER CHARLIE



Na semana passada o mundo foi surpreendido com um fatídico ataque à um jornal francês de nome Charlie Hebdo. Terroristas invadiram o prédio sede do jornal e mataram doze pessoas assim, apenas perguntando o nome para ter certeza de quem eram. O motivo? Publicações satíricas sobre o Profeta Maomé, o que acontece já há algum tempo, como em 2006, quando reações violentas foram notadas em Paris pelo mesmo motivo. Mas dessa vez a reação foi bem mais violenta. Os homens encapuzados foram vingar a sua crença da forma mais covarde e medonha que alguém pode fazê-lo: matando sem direito de defesa. 

Os vídeos que retratam alguns dos momentos são arrasadores, embora ainda despertem uma certa desconfiança sobre o que, de fato, aconteceu naquele dia. 

Dianta das mortes injustificadas (ou pelo menos assim boa parte do mundo enxerga), uma onda de manifestações correram a Europa em solidariedade aos mortos no atentado. A frase "Je Sui Charlie" (Eu Sou Charlie), declarando apoio ao jornal diante do ocorrido, estava estampada em camisetas, faixas, paredes e incendiavam o mundo de forma assustadora. As reportagens eram bem objetivas: terroristas massacraram inocentes. Os chargistas, que publicaram os desenhos satíricos sobre o Profeta Maomé seriam mártires, heróis de uma imprensa que querem calar. Será?

Uma outra onda de reações também estava invadindo as ruas e as redes sociais. "Eu Não Sou Charlie" revelava argumentos que se opunham a tanta vitimização dos chargistas diante do ocorrido, obviamente, sem defender os assassinatos, que devastaram a França e mexeram com as estruturas do mundo todo. Mas embora as mortes não se justifiquem, estamos mesmo tratando de forma correta os chargistas do Charlie? Heróis? Mártires? Confira 5 motivos que levam a mim e tantas outras pessoas a não ser Charlie:

1º motivo - LIBERDADE DE EXPRESSÃO: o principal argumento que envolve a vitimização dos chargistas é a de que os mesmos, com o ataque dos terroristas, estariam sofrendo uma privação da sua liberdade de expressão. Mas o que é liberdade? O que é expressão? Embora a relativação dos conceitos esteja ligada a variação cultural de cada povo, uma coisa é unânime: a liberdade está ligada ao respeito ao próximo. Sendo assim, o que me é livre, não pode interferir na liberdade do outro. Se tratamos de liberdade, o fazemos com base em direitos individuais, que envolvem a expressão, a vida, a paz, o convívio social e tantos outros bens imensuráveis a vida. Ser livre para expressar está ligado a opiniões, mas não ao desrespeito. A expressão de liberdade de forma errônea pode ser causador da privação de liberdade do próximo. Quando a imprensa contribui para a disseminação do preconceito, da segregação ou discriminação, está exercendo não um ato de liberdade, mas de repressão. Mesmo porque é um retrocesso expressar tamanhas críticas contra um estado tão pessoal como a religião. O que oprime, não liberta. Sendo assim: o Charlie não estava se utilizando da liberdade de expressão, mas uma ferramenta de opressão, nesse caso, ao povo mulçumano.

2º motivo - INCONSEQUÊNCIA: a França só teve, de fato, um certo conhecimento comum sobre o jornal em questão em 2006, diga-se de passagem de uma forma não muito positiva, republicando charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, que satirizava a figura do profeta Maomé. As reações foram catastróficas em todo o mundo. Para se ter uma ideia, o jornal iraniano Hamshahri lançou um concurso de charges sobre o HOLOCAUSTO, como retaliação às publicações. Mas o jornal francês pareceu não muito incomodado com os resultados das publicações. Permaneceu na mesma linha, satirizando religiões e outros temas de cunho político. Isso me lembra uma coisa interessante. A imprensa, chamada marrom, pela maioria das celebridades, era aquela que não se incomodava com o que se era publicado em suas páginas, obviamente com temas mais ligados a fofoca ou transcrições inteiramente mentirosas sobre suas palavras em entrevistas ou pronunciamentos oficiais. Isso era tão rebatido que chegou a gerar movimentos na Europa e Estados Unidos. O Charlie, embora não publicasse mentiras, não se importava com os resultados das suas publicações satíricas, ainda que recebesse ameaças de radicais islâmicos, que tinham como regra a não retratação do Profeta Maomé, sendo isso uma certa blasfêmia no Islamismo. Por essa atitude irresponsável e completamente inerte ao que acontece ao redor, apenas com o intuito de "contar piadas", esse é mais um motivo para não ser Charlie.



3º motivo - A CANETA MATA: uma das alegações entre os chargistas colegas dos que foram assassinados na França pelos terroristas era de que a caneta não mata, demonstrando a desproporcionalidade da reação dos terroristas mediante a indefesa dos chargistas. A covardia, de fato, é indiscutível. Mas eu discordo quanto ao poder da caneta, ela mata sim, que o diga Jean-Paul Marat, que ironicamente esteve ali naqueles arredores, utilizando a sua caneta para levar milhares de pessoas à guilhotina da Revolução Francesa. Sua sutileza em escrever às escondidas em um jornal meio informal, tipo o Charlie, matou várias pessoas e (vejam só) causou o seu assassinato. As armas utilizadas pelos terroristas revelam uma cultura de ódio inaceitável, opressiva e sanguinária, mas a dos chargistas para eles igualmente representa a violência. Com uma caneta podemos criar guerras, desfazer nações e até mesmo territórios. Os chargistas do Charlie Hebdo, certamente sabiam desse poder e não se preocuparam com os danos que tais charges poderiam provocar à nação francesa. 

4º motivo - DESCASO: isso pode ser apenas o início. Por mais que pareça um ato simples, uma brincadeira sem graça, isso pode desencadear uma série de atos contra os apoiadores do Charlie e as nações que se manifestarem a favor da tal liberdade de expressão. O que prova que o Jornal sequer considerou as repercussões das publicações, mesmo já tendo vivido represálias anos antes.  


5º motivo - INTOLERÂNCIA: a piadinha sem graça é um dos emissários da intolerância. Essa história de "perco o amigo e não perco a piada" é um dos ideais mais sem noção da sociedade moderna. A eclosão dos stand up comedies da vida provam isso. Pior ainda, ouvir comediantes brasileiros afirmando que ser humorista é uma profissão de risco. Na verdade ser muçulmano na França é uma condição de risco, alvo de preconceito e discriminação, com injeções de um jornal que padroniza as culturas. O problema é que nem todo muçulmano é terrorista, nem todo cristão é alienado, nem toda mulher é puta e nem todo gay é promíscuo. Quando isso é pregado de forma ampla na mídia, se não afeta a nossa condições, ficamos bem. Mas se nos atinge, saímos as ruas. Isso é incoerência. Os direitos humanos são de todos nós, uma sociedade que só se incomoda com o seu calo e não com o do próximo, precisa rever seus conceitos. Uma imprensa que se utiliza de piadas desse gênero, não merece respeito algum.
 

A verdade é que os atos covardes dos terroristas contra o Charlie Hebdo me deixaram indignado, triste e desacreditado em relação a tolerância. Contra o humor, contra a imprensa, contra a vida. Mas os atos do Charlie também me deixaram indignado e triste, aquilo foi contra o respeito, a moral e um atentado também a liberdade. Liberdade de expressar o que acredito sem ser motivo de chacota. De ter orgulho da minha existência sem que isso seja capa de jornal para veicular preconceito ou ideais distorcidos. A religião Islâmica é dotada de uma série de absurdos. Mas o Cristianismo também. E tantas outras religiões que rodeiam o mundo. Sendo assim, qualquer atitude que coloque a vida dos outros em risco por causa desses princípios, merece repúdio.



Não sou Charlie. Não sou terrorismo. 





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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Eis que voltando para casa depois de um sábado exaustivo de aulas, encontro um amigo de muito tempo esperando o ônibus em uma parada próxima a onde eu ia passando. Parei para cumprimenta-lo e inevitavelmente, após as perguntas padrões que fazemos sempre que não vemos alguém por muito tempo, acabamos por comentar sobre a política. Enquanto papeávamos, olhei mais adiante e percebi que um outro amigo, muito próximo dele, por sinal, estava alguns passos distante, braços cruzados que só perderam o orgulho para um rápido aceno para mim. Não me contive e questionei:
- Márcio, aquele não é o Victor? Vocês não se falam mais?
- Aquele imbecil? De jeito nenhum! Já sabe em quem ele vai votar? Me dá nojo. Falo com ele não.

Espera, quer dizer que vocês se conhecem desde criança, já brigaram por mulher, por bebida, por dinheiro, carro, empresa, viagens, amigos e até família e agora estão sem se falar por causa de discussão sobre política? É sério isso? Pior que sério. As discussões sobre essas últimas eleições levaram uma série de sociólogos e psicólogos a tratar sobre os desentendimentos que andaram acontecendo, sobretudo, nas redes sociais. Mas por que tanto ímpeto em defender um ideal, seja ele baseado ou não em argumentos sólidos?

É assustador, mas a maioria das discussões eram realmente pinceladas sobre fofocas entre ambos os candidatos. Os argumentos, ainda que fundamentados em pesquisas rápidas no facebook, eram misturados a uma intensa raiva, como se aceitar o voto alheio fosse um misto de injustiça e corrupção. Isso gerou aborrecimentos de norte a sul do país, Alguns, mais ousados, sugeriram que havia uma divisão na nação brasileiro, reforçado com o resultado das votações, metade do país (norte e nordeste + Minas Gerais e Rio de Janeiro) votou em Dilma, enquanto o Sul e Sudeste bravejou pela alternância do poder com Aécio Neves. Pronto, estava instaurada uma série de ações repugnantes contra os nordestinos, que viraria a raça pobre e burra que elegeu o PT mais uma vez, após tantos escândalos de corrupção. Tivemos direito, inclusive, a pedido de independência para o Sul/Sudeste pelo Coronel Telhada, do PSDB.

Os absurdos se estendem de várias maneiras. Nem vale a pena comentar. Mas acredito que a maior falha na discussão política do país se concentra na falsa democracia em que vivemos. Sou obrigado a escolher um lado, porque a cultura afirma que quem não se posiciona é apolítico, ignorante, inerte a sua realidade. Diante do embate entre dois lados, preciso correr para algum, saber qual me favorece mais, qual é mais coerente. Mas não tenho tempo para pesquisar, para discutir, então eu me rendo a mídia, imediatista e precoce, que publica informações manipuladas e a partir de tudo isso, firmo o meu posicionamento e o meu voto com unhas e dentes.

A democracia no Brasil, sem dúvida, precisa amadurecer. Quando o voto alheio nos incomoda a ponto de gerar um desejo por um planejamento político que invista na separação do país, algo está errado e acredite, não é apenas o lado escolhido.

Com a grande maioria dos votos, Dilma estará a frente do país por mais quatro anos. O PT conseguiu instaurar um longo governo com projetos sociais que atendem uma vasta população pobre e esquecida por muito tempo no Brasil, mas com desafios que superam e muito os governos anteriores. A economia, a inflação e os demais temas ligados as finanças do país correm o sério risco de esmagadoras críticas por parte da oposição. O partido da Marina Silva começa a engatinhar uma linha política mais conservadora que certamente virá com a força de um furacão na população brasileira, será que estamos preparados para discutir isso?

A nossa missão agora é juntar os cacos. Deixar o orgulho de lado e enfrentar um Brasil que precisa crescer muito mais do que a economia, mas seus valores, sua cidadania e o seu senso crítico contra si mesmo. Pensar na mudança interior, na política como uma extensão de nós mesmos. Quando tudo isso acontecer com mais frequência, aí sim, bem vindos a Democracia...


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terça-feira, 6 de maio de 2014

OS "(IN)JUSTICEIROS" DO GUARUJÁ

Há dois anos atrás, no Rio de Janeiro, foi divulgado um retrato falado de uma suspeita de sequestradora de crianças para supostas práticas de magia negra. A imagem, que foi publicada pela polícia em 2012, voltou à tona em uma página do Facebook chamada "Guarujá Alerta" há poucos dias.

Os moradores do Guarujá, ao terem acesso ao retrato falado da tal criminosa, a associou imediatamente a uma moradora local chamada Fabiane Maria de Jesus, mãe de duas filhas, uma de 13 e outra de 1 ano de idade. Do dia para a noite, Fabiane se tornou uma criminosa em potencial na região e foi brutalmente espancada pelos moradores do Guarujá, morrendo em seguida por causa da gravidade dos ferimentos causados pelos socos e chutes que levou até mesmo de crianças, no meio da rua, à luz do dia.

Depois do ato de selvageria ter sido consumado, a notícia: Fabiane não tinha absolutamente nada a ver com a mulher retratada pela Polícia do Rio de Janeiro. Simplesmente foi confundida pelos moradores do Guarujá que, acreditando serem os donos da verdade, assassinaram a mulher que, possivelmente, sequer sabia o que estava acontecendo.

OS JUSTICEIROS DE QUEM?

Recentemente explodiram diversos casos de cidadãos que resolveram partir pra cima dos bandidos e fazer justiça com as próprias mãos, alegando que, se o poder público não exerce a segurança, eles o fariam para garantir a ordem. Sentimentos como "se fez tem que pagar" ou "bandido tem que morrer" já tomam conta de diversas grandes cidades do país e também no interior. Recentemente, no estado do Rio Grande do Norte, um homem foi brutalmente espancado por roubar um celular.

A sociedade está completamente desordenada, acreditando que, todo o devido processo legal, a possibilidade de defesa e diversos outros institutos jurídicos existem apenas para enfeitar o ordenamento jurídico brasileiro, mas não é. É justamente para impedir que uma Fabiane seja assassinada que O ESTADO possui o poder de investigar e esclarecer quem é o verdadeiro criminosos e qual é a punição adequada. Mas, por alegar descrença no poder público (mesmo que muitos deles nem saibam o que isso significa, e não por falta de estudo, mas por falta de interesse), animais resolvem atacar pessoas na ruas que se parecem com supostos bandidos.

Agora imagine você mesmo, saindo para trabalhar e sendo atacado por um grupo de pessoas, que viram a sua foto em uma rede social, alegando que você é um estuprador, um assassino ou um ladrão de picolé. Depois é espancado e ali mesmo, perde a vida.

Nesse meio tempo, outra coisa espanta, não faz muito tempo que uma famosa repórter apoiou, em rede nacional, o ataque a bandidos por parte da sociedade, sendo apoiada abertamente em redes sociais por pessoas incentivando atos de selvageria, como se a sociedade tivesse alguma condição de julgar quem é culpado ou inocente. Mas diante do caso de Fabiane, pouco se vê, pouco se fala, pouco se justifica.

E o Governo segue preocupadíssimo, mas com a Copa. Os brasileiros não estão nenhum pouco preocupados com as eleições de outubro. Mas a família de Fabiane sim, essa não sabe o que fazer com tanta injustiça. Quem sabe a Raquel Sherazade não dá uma nova opinião sobre o povo fazer justiça com as próprias mãos. Quem sabe o povo, antes de atacar inocentes, se interessa por algo mais produtivo, como aprender a votar, por exemplo.

E que esses (in)justiceiros paguem caro pelos seus atos animalescos.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O FIM

A história é mais ou menos assim: início de noite em Luziânia (GO). Um faxineiro de 28 anos, Cleiton de Macianis, joga água no chão enquanto faz a limpeza da lotérica onde trabalha. Imediatamente ao perceber a chegada dos bandidos, Cleiton levanta as mãos para o alto, emitindo um sinal de que não reagiria ao assalto, o típico pedido de socorro pessoal que diz "não façam nada comigo, por favor".

Antes mesmo de tentarem arrombar a porta da lotérica, que era blindada, os assassinos já começaram a agredir o funcionário com a arma, deferindo golpes em sua cabeça. Nas imagens terríveis registradas pela câmera de segurança, Cleiton aparece naturalmente nervoso e parece tentar de todas as formas mostrar que está cooperando com os bandidos. Depois de dar chutes na porta numa tentativa frustrada de arrombá-la, os bandidos ficam irritados, resolvem ir embora, mas antes, em um ato repugnante e covarde, pouco mais de um minuto depois de terem entrado na lotérica, dão um tiro na cabeça de Cleiton de Macianis que cai já morto no local.

Nem dá para dizer que parece coisa de filme. Mesmo porque, tudo isso já é tão comum no falido sistema de segurança pública do Brasil que nem espanta mais ouvir tal notícia. A diferença ainda se faz quando vemos as imagens que reforçam a covardia e a ousadia de criminosos que estão plenamente convencidos de que são donos da situação, tudo podem e tudo querem, que o sistema não possui condições de reprimir suas ações.

Enquanto o Brasil é visto lá fora como um ícone mundial contraditório, que possui quase todos os seus setores falidos, porém está sediando um dos eventos esportivos mais caros do mundo, o cidadão mais uma vez precisa esconder-se da sua vida cotidiana. Os políticos insistem em aparecer nas propagandas eleitorais, escondidos em maquiagens pesadas e bandeiras hasteadas ao fundo, tentando convencer a sociedade que estamos avançando. Por outro lado, os opositores derrubam o Governo atual porque acreditam que agora é a vez deles nos roubarem.

A imprensa controlada pelo Governo, recebendo milhões para manipular suas notícias, omitem casos como esses que "mancham" a realidade da segurança do país, que pode assustar os ícones sociais do primeiro mundo que estarão pousando no Brasil em meados de junho. O que é noticiado é uma invasão de ladrões na casa da vereadora Heloísa Helena, porque o seu filho foi ferido e ela saiu ilesa.

A polícia, sucateada em quase todos os estados, não sabe ainda como irá capturar os assassinos, mas continua lembrando a você, cidadão trabalhador, que sofre com transporte público falido e baixos salários, que se algum bandido chegar perto, levante suas mãos, permaneça quieto, torça para que ele não se irrite, porque ele é quem vai decidir se você vive ou morre.

É o fim de uma sociedade cheia de problemas, causados por ricaços em seus condomínios fechados, políticos corruptos e ídolos fajutos que têm a coragem de afirmar que o maior benefício para o país hoje é construir estádios, quem pagou o pato foi o Cleiton Macianis, pai de dois filhos, inclusive um com poucos meses de vida. O que vai sobrar é uma estatística, simples, ignorada, como todas as outras. Desse faxineiro sim, podemos dizer, sem qualquer piada ou ironia: sabe de nada, inocente...



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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Vem Que Tem!


Ontem foi ao ar o último capítulo da novela "Amor à Vida" na Rede Globo. Recheado de muito choro, vilões arrependidos (e mortos), crianças nascendo e casamentos aos montes, o autor Walcyr Carrasco, ainda assim, guardou o mais inusitado para o desfecho.

Quem acompanhou os noticiários das últimas semanas, já sabia que havia uma grande possibilidade de acontecer o inédito "beijo gay" na emissora, feito inclusive já superado pela pioneira do Silvio Santos, o SBT, onde duas mulheres se beijaram na novela "Amor e Revolução". Apesar de não ter sido a primeira, a Rede Globo ainda era alvo de críticas por não permitir que tal fato acontecesse, segundo críticos, pelo medo da reação da emissora que detém os maiores pontos de audiência do país.

Pelo sim, pelo não, os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) vivenciaram um momento histórico na noite de ontem, o inusitado beijo aconteceu, sem muito alarde e nem exageros, parecia que o autor da novela apenas queria mostrar que tal comportamento existia, embora muitas pessoas não quisessem ver.

A reação foi instantânea, as redes sociais foram bombardeadas de elogios e críticas de todos os gêneros. Parecia até final de copa do mundo, tinha até gente gritando na rua.

Enquanto a cena acontecia, os atores Thiago Fragoso e Mateus Solano acompanhavam tudo em uma churrascaria no Rio (foto acima) com suas respectivas esposas, Mariana Vaz e Paula Braun (que interpretou a personagem Rebeca na trama).

AMOR À VIDA?

Até hoje não entendo o título dessa novela. Amor à vida tinha de tudo, menos amor. Um vasto caminho de traições, mentiras, prostituição e um monte de balelas que, todos nós sabemos, possuíam um único intuito: audiência e alguns milhões para a emissora em publicidade. Diante de tudo que a novela mostrou e que era noticiado durante esses meses, um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo seria fichinha, sempre pensei nisso.

Na verdade, muito se especulou sobra a reação social diante de um beijo gay no horário nobre. Fato é que ainda é muito cedo para falar sobre "reação" das pessoas de algo que acabou de acontecer, mesmo porque, se conhecemos bem a mídia nacional, isso aí no mínimo vai virar matéria do Fantástico e de outros programinhas da Rede Globo.

Ouviu-se inclusive em falar de boicote a novela por cristãos para frustrar a ideia do "beijo gay" na emissora, alegando que tal ato influenciaria de forma negativa a sociedade como um todo, destruindo a imagem da família brasileira.

O QUE MAIS ASSUSTA

Apesar da inutilidade das novelas, elas sempre se tornam um verdadeiro "termômetro" de como está o pensamento da sociedade, o que não foi diferente na trama do Walcyr Carrasco.

Alguns capítulos anteriores ao fatídico beijo, a personagem Aline, vivida pela atriz Vanessa Giácomo, esfaqueou o Ninho (Juliano Cazarré) em uma cena, no mínimo, perturbadora. Não sei se para mostrar mais realismo ou simplesmente por querer chocar, a cena mostrava a faca entrando na barriga do personagem com uma clareza assustadora (tudo envolto em truques de flmagens, claro).
Na mesma hora pensei: "nossa, que cena absurda! Espero que estejam criticando esse tipo de violência no horário nobre." Para a minha surpresa: nenhum comentário sério. Ao contrário, piadas eram feitas em todos os lugares, fotos com uma faca fincada em uma caixa de leite da marca Ninho faziam alusão à cena da novela.

Fiquei pensando se eu estava exagerando em relação a cena, que ainda assim, ao menos para mim, parecia muito forte para ser exibida naquele horário. Estávamos falando de uma tentativa de homicídio, facadas, sangue, por meio de uma cilada, impossibilitando a defesa da vítima, ou seja, um assassinato brutal e covarde, desses que vemos na TV aos montes nos noticiários. Mesmo assim, sem comentários na web.

Ontem a noite, quando voltava para casa, me deparei com uma chuva de comentários sobre o tal beijo gay. Pessoas se engalfinhando nas redes sociais, defendiam com unhas e dentes os direitos iguais, enquanto cristãos metralhavam a emissora pela má influência na família brasileira. Assunto mais comentado no twitter, facebook, instagram, enfim...o Brasil parou por causa do beijo.

Mas pera...se o Brasil parou por causa do beijo e não parou por causa de uma cena de assassinato brutal, tem alguma coisa errada...

Meus amigos, os valores estão destruídos. A satisfação do ego das pessoas ultrapassou todos os limites, a briga pelo que acreditam ser um avanço ou retrocesso fez com que a sociedade não enxergasse o que realmente acontece nas ruas. Engraçado que, quando falei sobre isso com algumas pessoas, elas afirmam: "por isso que nem assisto essas novelas...", mas o problema não estar em assistir ou não. De que adianta isso se você continua inerente a sua realidade?

Mas esse é o Brasil das novelas:

Em que torcemos pela mocinha, mas não ajudamos o vizinho.

Em que criticamos discutir a sexualidade, mas corremos para ver aquela atriz de biquíni.

Em que aplaudimos o beijo gay de atores consagrados e fofocamos sobre os trejeitos do colega de trabalho.

Em que criticamos a personagem interesseira da novela mas na vida real só queremos amizade com quem tem algo a nos oferecer.

Em que um assassinato merece elogios de atuação, mas o beijo gay irá destruir a nossa sociedade.

Falta muito para o Brasil se recuperar da sua consciência doente. Me espanto por que ainda perguntam qual o motivo de tanta violência e desigualdade no nosso país. Está claro não é? Quase ninguém se importa com a realidade.

O próprio autor Wlacyr Carrasco, não está nem aí para a repercussão do que escreve, quer dinheiro, quer ser consagrado e elogiado. Porque o verdadeiro Brasil está nas costas de quem luta para viver com dignidade e respeito. E nós, que poderíamos mudar o Brasil, ainda sequer entendemos as consequências de um beijo e de um homicídio...estamos bem... ¬¬

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domingo, 22 de dezembro de 2013


 

A nossa querida cidade, já embalada pelas luzes natalinas (não muito honrosas, diga-se de passagem), foi palco de mais um protesto previamente comunicado em redes sociais. Para ser mais específico, o Shopping Midway Mall foi o cenário para uma reação um tanto agressiva contra a entrada de um determinado grupo de pessoas no maior shopping do estado.

Segundo relatado anteriormente por alguns jornais locais, o protesto dos denominados "pintas" ocorreu em reação a uma proibição não formal da entrada de um determinado grupo de pessoas no estabelecimento, pois as mesmas haveriam causado confusão dias anteriores na praça de alimentação do Shopping.

O problema é que os "pintas" se sentiram ofendidos com a notícia e em um grupo de mais ou menos 50 pessoas, tentaram entrar no Midway Mall ontem a noite, quando foram reprimidos pelos seguranças e policiais militares de prontidão ao redor do Shopping. Revoltados com a ação, os "pintas" (segundo notícias vinculados a portais como: Via Certa Natal e Tribuna do Norte) atiraram pedras contra os seguranças e portas, chegando a quebrar vidraças. Em contrapartida, há relatos de que a polícia agrediu os manifestantes, chegando a quebrar câmeras e afastar jornalistas do local.

O saldo final? Doze manifestantes presos e dois policiais feridos, um deles encaminhado para o Hospital Clóvis Sarinho, em Natal. Os lojistas ainda afirmaram que tiveram a noite perdida, pois os clientes do Shopping, em sua grande maioria, foram embora após a confusão, com medo de serem vítimas de violência.

Bandidagem ou justa reação?

Nem precisa dizer que as redes sociais foram tomadas por grupos contra e a favor da manifestação. Apesar de alguns argumentarem que o foco é uma questão discriminatória, a esmagadora maioria acredita que o protesto foi coisa de vagabundo mesmo, que não tem o que fazer.

Acho interessante que todos crescemos com a ideia de que frequentar determinados lugares é coisa para "determinadas pessoas", por vezes nos questionamos sobre a verdadeira intenção da política de consumo, dos motivos que levam o sistema a deixar bem esclarecido quem é quem na camada social.

Foram-se os tempos em que shopping era coisa para ricos, mesmo criança, no meu caso, isso não existia mais. Apenas pessoas de classe mais baixa não se sentiam confortáveis para ir a esses lugares por entenderem que não teriam condições de se adaptar à um ambiente desse porte, ainda que por alguns momentos.

Alguns alegam que a repressão é justa devido ao ato de violência que ocorreu alguns dias antes na Praça de Alimentação do Shopping. Lendo a respeito, muito se fala e pouco se conclui. Mas a grande maioria afirma que se tratava de uma briga de gangues. Independente disso, TODOS nós sabemos que existe uma unidade opressora que busca de várias formas "apagar" a imagem do pobre dos meios consumistas. Um mendigo em um Shopping é quase tido como uma mancha em uma roupa linda e cara: precisa ser retirado o mais rápido possível. A reação carrega outros fatores: medo é um deles.

Estou falando tudo isso porque, confusão de gangues, brigas em lugares públicos e etc, não é coisa de pobre (isso todos sabemos) e muito menos coisa de rico: é coisa de humanos (descontrolados). Sejam pintas ou não, diversos marmanjos e até mulheres se engalfinham nas ruas por vários motivos, alguns deles até inacreditáveis. Por isso, eu pergunto: se um grupo de torcedores de um jogo do Brasil, bem vestidos na Praça de Alimentação do mesmo Shopping, começassem uma intensa baderna e quebra-quebra, seriam retirados do local? Certamente que sim. Mas seriam proibidos de retornar?

Toda forma de violência deve ser combatida, óbvio que sim. Expulsar de um ambiente privado qualquer um que incite a violência é uma reação justa e natural em favor do bem comum. Mas quanto preconceito e discriminação se carrega em um ato como o dos "pintas" no Shopping? Até onde vai o medo e o simples fato de não querermos essas pessoas por perto?

É interessante que o sistema cria modelos, separa a sociedade, mas depois não quer encarar as diferenças existentes nela mesma. Ainda acredito que proibir "pintas" (que não possui uma definição própria, mas carrega apenas características de cunho estiloso, sim, estão proibindo pessoas de bermudas, chinelos, bonés e mochila que de alguma forma lembrem os ditos cujos) também é proibir loiros, cristãos, gays, obesos, idosos, etc. Não se trata de tipo, mas de um fato isolado que pode ser evitado de várias formas.

Me assusta essa coisa do "proibir". Mesmo que a expulsão seja justa, acho que existe uma carga pesada de preconceito na atitude do Shopping, que, querendo ou não, está lidando com um grupo acostumado a ser reprimido de várias formas. Excluo da minha fala e do meu texto, os criminosos infiltrados na ação, para eles o discurso é outro, mas acho que é interessante atentar para o ponto que chegamos.

Será que se um grupo de obesos se agredirem nas dependências do shopping, esse grupo também será proibido de entrar?

Bom, já sei que após o movimento, os "pintas" tiveram acesso ao Shopping, ainda que a maioria dos clientes já tivessem ido embora. Mas a intenção de proibir é assustador.

Culpados? Existem vários. Desde o Governo medíocre que não dá acesso a todos terem o consumo que liberam em bombardeios na TV aos pais que muitas vezes abandonam a educação dos filhos por acharem que a vida os ensinará. A verdade é que, nesse ninho de cobras, alguém será picado. E o que está sendo reprimido hoje, infelizmente amanhã estará fazendo de refém em um ponto qualquer da cidade um parente nosso ou até nós mesmos. E aquele que o sistema se encarregou de apagar, obterá os holofotes sobre ele por alguns momentos que podem marcar uma sociedade para sempre.

Contra violência. Contra repressão. A favor da igualdade, mas acima de tudo, do bom senso. Sou contra o protesto, contra a proibição. Quem busca paz, precisa trazer a paz. Quem busca o terror, não deve viver em sociedade.

E você? O que acha? Violência ou reação à repressão?

=P
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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

CARTA AOS MENSALEIROS



Queridos mensaleiros,

gostaria por meio desse documento informar que as nossas instalações, infelizmente, ainda estão inadequadas diante de vossas necessidades. Acho que hão de entender que não esperávamos que chegassem tão cedo no sistema carcerário, afinal, o crime só tem oito anos (risos).

Embora o sistema esteja destruído há muitos anos, com problemas de super lotação, presidiários enfermos e sem atendimento por mais de dez anos em algumas unidades, prometemos que, para melhor atender a vocês, principalmente o nosso querido José Genoíno, que se encontra doente (mesmo estranhando que a doença não estivesse tão grave antes que entrasse em nossas instalações) seja melhor acomodado e bem atendido.

Gostaria de fazer uma ressalva leve, jamais querendo ofender a nenhum de vocês, vasculhei na mídia e não consegui encontrar nenhuma iniciativa dos senhores para mudar a realidade das prisões brasileiras, pensei que, se estavam incomodados com a atual realidade quando entraram, então já seria uma luta antiga, mas me enganei, acho que quando a gente prova da realidade, tudo se torna mais amargo (risos).

 Ah, bordamos uma estrelinha do PT na cela de alguns condenados, tomamos a liberdade para que se sintam mais aconchegados. Pedimos que não se acostumem com a regalia, normalmente não temos nem lugar para os presos dormirem, talvez os senhores precisem se revezar com os demais criminosos para isso.

Eu sei, eu sei...alguns ainda dizem que vocês foram presos injustamente. Mas meu caros, não quero ser malicioso, mas é o que todos dizem. Torço para que a justiça seja feita. Bom, acho que por enquanto é isso, sejam bem vindos ao sistema carcerário brasileiro! Cumpram suas penas e divirtam-se. E por favor, não nos deixem tão rápido, necessitamos da companhia ilustre dos senhores, não é todo dia que pessoas de poder chegam aqui para ficar nesse país.

Att,

Sistema Carcerário Brasileiro - Aqui se Faz, Aqui se Paga.



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