terça-feira, 13 de janeiro de 2015

5 RAZÕES QUE ME FAZEM NÃO SER CHARLIE



Na semana passada o mundo foi surpreendido com um fatídico ataque à um jornal francês de nome Charlie Hebdo. Terroristas invadiram o prédio sede do jornal e mataram doze pessoas assim, apenas perguntando o nome para ter certeza de quem eram. O motivo? Publicações satíricas sobre o Profeta Maomé, o que acontece já há algum tempo, como em 2006, quando reações violentas foram notadas em Paris pelo mesmo motivo. Mas dessa vez a reação foi bem mais violenta. Os homens encapuzados foram vingar a sua crença da forma mais covarde e medonha que alguém pode fazê-lo: matando sem direito de defesa. 

Os vídeos que retratam alguns dos momentos são arrasadores, embora ainda despertem uma certa desconfiança sobre o que, de fato, aconteceu naquele dia. 

Dianta das mortes injustificadas (ou pelo menos assim boa parte do mundo enxerga), uma onda de manifestações correram a Europa em solidariedade aos mortos no atentado. A frase "Je Sui Charlie" (Eu Sou Charlie), declarando apoio ao jornal diante do ocorrido, estava estampada em camisetas, faixas, paredes e incendiavam o mundo de forma assustadora. As reportagens eram bem objetivas: terroristas massacraram inocentes. Os chargistas, que publicaram os desenhos satíricos sobre o Profeta Maomé seriam mártires, heróis de uma imprensa que querem calar. Será?

Uma outra onda de reações também estava invadindo as ruas e as redes sociais. "Eu Não Sou Charlie" revelava argumentos que se opunham a tanta vitimização dos chargistas diante do ocorrido, obviamente, sem defender os assassinatos, que devastaram a França e mexeram com as estruturas do mundo todo. Mas embora as mortes não se justifiquem, estamos mesmo tratando de forma correta os chargistas do Charlie? Heróis? Mártires? Confira 5 motivos que levam a mim e tantas outras pessoas a não ser Charlie:

1º motivo - LIBERDADE DE EXPRESSÃO: o principal argumento que envolve a vitimização dos chargistas é a de que os mesmos, com o ataque dos terroristas, estariam sofrendo uma privação da sua liberdade de expressão. Mas o que é liberdade? O que é expressão? Embora a relativação dos conceitos esteja ligada a variação cultural de cada povo, uma coisa é unânime: a liberdade está ligada ao respeito ao próximo. Sendo assim, o que me é livre, não pode interferir na liberdade do outro. Se tratamos de liberdade, o fazemos com base em direitos individuais, que envolvem a expressão, a vida, a paz, o convívio social e tantos outros bens imensuráveis a vida. Ser livre para expressar está ligado a opiniões, mas não ao desrespeito. A expressão de liberdade de forma errônea pode ser causador da privação de liberdade do próximo. Quando a imprensa contribui para a disseminação do preconceito, da segregação ou discriminação, está exercendo não um ato de liberdade, mas de repressão. Mesmo porque é um retrocesso expressar tamanhas críticas contra um estado tão pessoal como a religião. O que oprime, não liberta. Sendo assim: o Charlie não estava se utilizando da liberdade de expressão, mas uma ferramenta de opressão, nesse caso, ao povo mulçumano.

2º motivo - INCONSEQUÊNCIA: a França só teve, de fato, um certo conhecimento comum sobre o jornal em questão em 2006, diga-se de passagem de uma forma não muito positiva, republicando charges do jornal dinamarquês Jyllands-Posten, que satirizava a figura do profeta Maomé. As reações foram catastróficas em todo o mundo. Para se ter uma ideia, o jornal iraniano Hamshahri lançou um concurso de charges sobre o HOLOCAUSTO, como retaliação às publicações. Mas o jornal francês pareceu não muito incomodado com os resultados das publicações. Permaneceu na mesma linha, satirizando religiões e outros temas de cunho político. Isso me lembra uma coisa interessante. A imprensa, chamada marrom, pela maioria das celebridades, era aquela que não se incomodava com o que se era publicado em suas páginas, obviamente com temas mais ligados a fofoca ou transcrições inteiramente mentirosas sobre suas palavras em entrevistas ou pronunciamentos oficiais. Isso era tão rebatido que chegou a gerar movimentos na Europa e Estados Unidos. O Charlie, embora não publicasse mentiras, não se importava com os resultados das suas publicações satíricas, ainda que recebesse ameaças de radicais islâmicos, que tinham como regra a não retratação do Profeta Maomé, sendo isso uma certa blasfêmia no Islamismo. Por essa atitude irresponsável e completamente inerte ao que acontece ao redor, apenas com o intuito de "contar piadas", esse é mais um motivo para não ser Charlie.



3º motivo - A CANETA MATA: uma das alegações entre os chargistas colegas dos que foram assassinados na França pelos terroristas era de que a caneta não mata, demonstrando a desproporcionalidade da reação dos terroristas mediante a indefesa dos chargistas. A covardia, de fato, é indiscutível. Mas eu discordo quanto ao poder da caneta, ela mata sim, que o diga Jean-Paul Marat, que ironicamente esteve ali naqueles arredores, utilizando a sua caneta para levar milhares de pessoas à guilhotina da Revolução Francesa. Sua sutileza em escrever às escondidas em um jornal meio informal, tipo o Charlie, matou várias pessoas e (vejam só) causou o seu assassinato. As armas utilizadas pelos terroristas revelam uma cultura de ódio inaceitável, opressiva e sanguinária, mas a dos chargistas para eles igualmente representa a violência. Com uma caneta podemos criar guerras, desfazer nações e até mesmo territórios. Os chargistas do Charlie Hebdo, certamente sabiam desse poder e não se preocuparam com os danos que tais charges poderiam provocar à nação francesa. 

4º motivo - DESCASO: isso pode ser apenas o início. Por mais que pareça um ato simples, uma brincadeira sem graça, isso pode desencadear uma série de atos contra os apoiadores do Charlie e as nações que se manifestarem a favor da tal liberdade de expressão. O que prova que o Jornal sequer considerou as repercussões das publicações, mesmo já tendo vivido represálias anos antes.  


5º motivo - INTOLERÂNCIA: a piadinha sem graça é um dos emissários da intolerância. Essa história de "perco o amigo e não perco a piada" é um dos ideais mais sem noção da sociedade moderna. A eclosão dos stand up comedies da vida provam isso. Pior ainda, ouvir comediantes brasileiros afirmando que ser humorista é uma profissão de risco. Na verdade ser muçulmano na França é uma condição de risco, alvo de preconceito e discriminação, com injeções de um jornal que padroniza as culturas. O problema é que nem todo muçulmano é terrorista, nem todo cristão é alienado, nem toda mulher é puta e nem todo gay é promíscuo. Quando isso é pregado de forma ampla na mídia, se não afeta a nossa condições, ficamos bem. Mas se nos atinge, saímos as ruas. Isso é incoerência. Os direitos humanos são de todos nós, uma sociedade que só se incomoda com o seu calo e não com o do próximo, precisa rever seus conceitos. Uma imprensa que se utiliza de piadas desse gênero, não merece respeito algum.
 

A verdade é que os atos covardes dos terroristas contra o Charlie Hebdo me deixaram indignado, triste e desacreditado em relação a tolerância. Contra o humor, contra a imprensa, contra a vida. Mas os atos do Charlie também me deixaram indignado e triste, aquilo foi contra o respeito, a moral e um atentado também a liberdade. Liberdade de expressar o que acredito sem ser motivo de chacota. De ter orgulho da minha existência sem que isso seja capa de jornal para veicular preconceito ou ideais distorcidos. A religião Islâmica é dotada de uma série de absurdos. Mas o Cristianismo também. E tantas outras religiões que rodeiam o mundo. Sendo assim, qualquer atitude que coloque a vida dos outros em risco por causa desses princípios, merece repúdio.



Não sou Charlie. Não sou terrorismo. 





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