terça-feira, 28 de outubro de 2014

Eis que voltando para casa depois de um sábado exaustivo de aulas, encontro um amigo de muito tempo esperando o ônibus em uma parada próxima a onde eu ia passando. Parei para cumprimenta-lo e inevitavelmente, após as perguntas padrões que fazemos sempre que não vemos alguém por muito tempo, acabamos por comentar sobre a política. Enquanto papeávamos, olhei mais adiante e percebi que um outro amigo, muito próximo dele, por sinal, estava alguns passos distante, braços cruzados que só perderam o orgulho para um rápido aceno para mim. Não me contive e questionei:
- Márcio, aquele não é o Victor? Vocês não se falam mais?
- Aquele imbecil? De jeito nenhum! Já sabe em quem ele vai votar? Me dá nojo. Falo com ele não.

Espera, quer dizer que vocês se conhecem desde criança, já brigaram por mulher, por bebida, por dinheiro, carro, empresa, viagens, amigos e até família e agora estão sem se falar por causa de discussão sobre política? É sério isso? Pior que sério. As discussões sobre essas últimas eleições levaram uma série de sociólogos e psicólogos a tratar sobre os desentendimentos que andaram acontecendo, sobretudo, nas redes sociais. Mas por que tanto ímpeto em defender um ideal, seja ele baseado ou não em argumentos sólidos?

É assustador, mas a maioria das discussões eram realmente pinceladas sobre fofocas entre ambos os candidatos. Os argumentos, ainda que fundamentados em pesquisas rápidas no facebook, eram misturados a uma intensa raiva, como se aceitar o voto alheio fosse um misto de injustiça e corrupção. Isso gerou aborrecimentos de norte a sul do país, Alguns, mais ousados, sugeriram que havia uma divisão na nação brasileiro, reforçado com o resultado das votações, metade do país (norte e nordeste + Minas Gerais e Rio de Janeiro) votou em Dilma, enquanto o Sul e Sudeste bravejou pela alternância do poder com Aécio Neves. Pronto, estava instaurada uma série de ações repugnantes contra os nordestinos, que viraria a raça pobre e burra que elegeu o PT mais uma vez, após tantos escândalos de corrupção. Tivemos direito, inclusive, a pedido de independência para o Sul/Sudeste pelo Coronel Telhada, do PSDB.

Os absurdos se estendem de várias maneiras. Nem vale a pena comentar. Mas acredito que a maior falha na discussão política do país se concentra na falsa democracia em que vivemos. Sou obrigado a escolher um lado, porque a cultura afirma que quem não se posiciona é apolítico, ignorante, inerte a sua realidade. Diante do embate entre dois lados, preciso correr para algum, saber qual me favorece mais, qual é mais coerente. Mas não tenho tempo para pesquisar, para discutir, então eu me rendo a mídia, imediatista e precoce, que publica informações manipuladas e a partir de tudo isso, firmo o meu posicionamento e o meu voto com unhas e dentes.

A democracia no Brasil, sem dúvida, precisa amadurecer. Quando o voto alheio nos incomoda a ponto de gerar um desejo por um planejamento político que invista na separação do país, algo está errado e acredite, não é apenas o lado escolhido.

Com a grande maioria dos votos, Dilma estará a frente do país por mais quatro anos. O PT conseguiu instaurar um longo governo com projetos sociais que atendem uma vasta população pobre e esquecida por muito tempo no Brasil, mas com desafios que superam e muito os governos anteriores. A economia, a inflação e os demais temas ligados as finanças do país correm o sério risco de esmagadoras críticas por parte da oposição. O partido da Marina Silva começa a engatinhar uma linha política mais conservadora que certamente virá com a força de um furacão na população brasileira, será que estamos preparados para discutir isso?

A nossa missão agora é juntar os cacos. Deixar o orgulho de lado e enfrentar um Brasil que precisa crescer muito mais do que a economia, mas seus valores, sua cidadania e o seu senso crítico contra si mesmo. Pensar na mudança interior, na política como uma extensão de nós mesmos. Quando tudo isso acontecer com mais frequência, aí sim, bem vindos a Democracia...


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